Quando eu tinha uns 15 anos voltava do colégio de lotação. Na época eram mais baratas e rápidas que os ônibus, ou seja, clandestinas.Eram kombis bem pequenas e às vezes você acabava sentado ao lado do motorista.
Certo dia eu estava entre um motorista e um senhor que logo puxou assunto. Coisas meio aleatórias e desconexas, mas uma parte eu nunca esqueci, devido à estranheza.
- Você sabe o que é um alfaite?
Olhei meio torto para ele, não intendendo que tipo de pergunta era aquela. Respondi meio tímido.
- Sei.
- Você já conheceu um alfaiate?
- Não.
Então ele me olhou fundo com seus olhos brilhantes que demonstravam uma certa insanidade e me estendeu a mão.
- Agora conhece! Muito prazer.
Cumprimentei-o e ele sorriu prazeroso antes de desembarcar um ponto antes do meu. Graça a ele posso dizer para todo mundo que um dia eu conheci um alfaiate.
O dia em que conheci um alfaiate
20/11/2009 por baninA prova de que a insurreição chega antes de 2012
14/11/2009 por anitadestroE então rolou aquele apagão nacional, todo mundo já sabe, blá blá blá.
Que dia foi mesmo? Dez de novembro, né? Já tinha passado o Halloween, pelas minhas contas. (Ou o calendário tá todo errado, vai saber).
Era o aniversário da minha irmã. Algumas amigas dela vieram em casa comer pizza. Fizeram questão de acabar com a única pizza vegetariana que tinha, apesar que eu sou a única vegetariana da casa. Puro estresse. Mandei todo mundo tomar no cu, tenho intimidade suficiente. Fora isso, tudo nos conformes.
Dez e tanto da noite. Festa: já era. Limpeza da casa: já era também. Banho: tomado. Hora de enrolar no emi-ésse-ene e tentar vencer a insônia.
PUFF!
Lá se vai a força.
Tudo bem, no break funcionando, tudo certo.
Fui à janela: não se via luz em lugar algum. Tentei ligar pra algumas pessoas e nada.
Os vizinhos saíram de suas casas e começaram a fofocar e criar teorias sobre o que poderia ter acontecido. Nenhum de nós sabia ainda da dimensão do fato.
Um grito… correria. Barulhos estranhos, um tiro talvez. Todos de volta às suas casas, conforto e a sensação de segurança.
Silêncio novamente.
Peguei meu celular pra tentar registrar alguma coisa. Num primeiro momento, nada. Alguns minutos depois mais correria. Uma mulher urrava de dor e ao longe ouvia-se “Miooooolos”.
A insurreição começou. Prepare seu guia de sobreviência.
Os culpados pelo apagão? Zumbis, óbvio.
Pararraio
12/11/2009 por baninTerça, graças ao gerador do Via Funchal e ao show do Gogol Bordello, consegui fugir do apagão por uns instantes. Na verdade só fiquei sabendo do mesmo quando sai do local e fui pegar um taxi. O taxista me alertou e, óbvio, cobrou mais caro na corrida, usou a escuridão a seu favor.
Fui para casa de um amigo, mais próxima do local, justamente para economizar no taxi. Já era quase duas da manhã.
“Avisa o porteiro que estou chegando”, assim o cara já ficava acordado e eu não esperava muito tempo no escuro.
De repente pássavamos por um bairro que já tinha energia, isso me tranquilizou. Telefonei novamente:
- Falou com o porteiro?
- Falei, mas você vai ter que subir 11 andares de escada.
Faltando um quarteirão para chegar no prédio em que ele mora, já era uma região sem energia novamente. Maravilha.
Paguei o taxista, desci e bati na porta do prédio. A campainha não funcionaria, óbvio. Ainda havia algumas pessoas na rua, no ponto de ônibus e um carro de polícia passou por mim, apagado e bem devagar.
O porteiro abriu a porta, perguntou se eu sabia qual andar era, disse que sim. Usei o celular para iluminar o caminho e perguntei onde era a escada. Eis que do nada surge um outro cara, segura meu ombro e diz “por aqui” e me leva em direção à escada. Comecei a subir e ele foi junto, exalava álcool e começou a falar comigo.
- Você mora aqui?
- Não. E você?
- Moro.
- Até que andar você vai?
- Não sei, vamos subindo.
Pronto, minha cabeça já começou a ir longe. Que tipo de pessoa mora no local e não sabe até onde vai subir? Mas ele continuou.
- Nossa cara, quase rodei agora.
- O que foi?
- Não, quase rodei, mas ainda bem que deu tudo certo. Vamos subindo.
Então deixei ele ir na minha frente, e continuei iluminando o caminho com a luz do celular. A primeira coisa que passou pela minha cabeça foi “esse filho da puta não mora aqui, e tá fugindo daquele carro de polícia que eu vi passar. Ele entrou no prédio escondido junto comigo, mas como? E se ele tentar algo, o que eu faço”. Ele falou de novo.
- Você mora aqui? (sim, ele repetiu a pergunta)
- Não, e você?
- Moro.
- Que andar?
- Não sei, acho que no quinto.
- Bom, vamos ver onde estamos então.
Saí da escada e procurei a porta de um apartamento para ver o andar. Estávamos no segundo. “Beleza, só mais três”
Então ele parou no meio do corredor e começou a falar
- Nossa cara, quase rodei agora. Ainda bem que deu certo.
“Filho da puta! Esse cara quer me zuar, maldito” Ele continuou:
- Quase morri agora. Tava subindo e me jogaram da escada, o porteiro ficou rindo de mim. Quase morri, cara!
“Pronto, ele me deu uma ótima idéia. Se ele tentar alguma coisa, eu derrubo ele da escada e pronto”
- Vamos subir, só faltam mais três para você.
Comecei a ir mais rápido, deixando ele um pouco pra trás, o que na verdade era uma péssima idéia porque se ele fosse fazer algo, seria pelas minhas costas e eu estaria ferrado. Olhei para trás e ele estava cambaleando, se apoiando na parede para poder subir. Eu poderia muito bem ir correndo na frente dele, mas e se ele ficasse bravo? Se eu caísse e ele me alcançasse? Então o esperei e continuei subindo junto com ele, segurando-o umas duas vezes quando ele quase caiu. Fui contando os andares mentalmente.
- Chegamos no quinto. Você fica aqui, beleza? Eu vou subir mais.
- Tá, valeu.
Enquanto eu subia ele ainda falava algo que eu não consegui entender. Era só um bêbado afinal, que caiu da escada e achou que o tinham derrubado. Mas o começo da história e o cenário eram mais que propícios para pensarmos qualquer tipo de situação muito pior.
Carisma
28/10/2009 por baninEu sou tão bem quisto pelos meus colegas de trabalho que fico até espantado. É normal alguém dizer que tinha (ou ainda tem) medo de falar comigo, que eu sou bravo e bla bla bla.
Tempos atrás um rapaz que trabalhava comigo disse que havia sonhado que eu o matava, com diversas facadas. Apesar do verbo no passado, ele ainda está vivo, apenas não trabalha mais aqui.
Hoje cedo recebi uma mensagem no celular, de uma colega de trabalho dizendo, resumidamente, o seguinte: “sonhei com vc, vc me enchia o saco então eu te matei”.
Aparências
20/10/2009 por banin- Rapaz, eu acho, ou melhor, os outros acham, que eu tenho cara de três coisas.
Antes que eu continuasse ele já me olhava estranho, mas prossegui.
- A primeira: fumante, direto me pedem cigarro ou isqueiro na rua. A segunda: posto de informação. Não ri, to falando sério. Às vezes tem umas dez pessoas na rua e pedem informação pra mim, geralmente daquilo que eu não sei. E quando perguntem pros outros é algo que eu sei e vejo que respondem errado, mas ai não me intrometo.
- E a terceira?
- Devem achar que eu tenho cara de milionário.
Ele riu.
- Sério! Nas duas últimas semanas me pararam umas cinco vezes, voltando do trabalho pra pedir dinheiro. É sempre a história de “eu moro longe e preciso voltar pra casa”. Quando eu sinto que é verdade, até ajudo.
‘Uma das vezes era um cara, muito bêbado, mas tinha cara de trabalhador sabe? Era um cara simples, mas bem vestido, só que muito bêbado. Ele disse que frequentava o AA faz uns anos e teve uma recaída. Que tava com vergonha de pedir dinheiro pra mim, e se eu poderia inteirar a passagem do ônibus dele, porque ele teria vergonha de pedir dinheiro pra outra pessoa.’
- Você ajudou?
- Dei uns 2 reais para ele. O agradecimento foi sincero.
- Hahaha, e nas outras vezes?
- Então, era sempre a mesma história, mas só ajudei numa outra, com alguns trocados. O engraçado é que é sempre no mesmo lugar, mas pessoas diferentes.
Começamos a subir a rampa até o metrô então continuei.
- A última vez o cara veio todo simpático, disse que não queria me atrasar e tal, era um cara bem novinho. Ai ele também pediu dinheiro pra voltar pra casa, eu parei e falei para ele “cara, quase todo dia alguém me pede algo aqui, se eu der dinheiro pra todo mundo eu tô fodido! Quem me ajuda?” Ai ele ficou meio sem jeito, pediu desculpa, mas morava longe
“Olha”, falei pra ele “Eu tenho fruta aqui na mala, pode ser?”
“Pô, claro! Cuidar da alimentação né? Também é importante”
- Ai dei uma maça e uma bana que eu tinha na mala, ele agradeceu, bem sincero também e foi embora.
Nisso estávamos próximo à catraca, havia uma pequena fila, bem rápida. Um senhor, dentre todas as outras pessoas, se aproximou DE MIM.
- Moço, desculpa, mas eu preciso pegar o metrô pra voltar pra casa e tô sem dinheiro.
Olhei bem nos olhos dele e respondi
- Meu bilhete único não passa duas vezes (o que é verdade), foi mal.
Atravessei a catraca, do outro lado o cara com quem eu conversava antes ria:
- É, você tem cara de milionário mesmo. Se você me disesse que tem uma Ferrari eu acreditaria.
Mostrei o dedo, e descemos a escada para pegar o metrô.
Inhotim
17/10/2009 por baninNeste feriado viajei para Belo Horizonte, e num dos dias fui com um amigo ao Inhotim.
O Inhotim é uma mistura ded parque com museu de arte contemporânea, com diversas galerias grandes, instalações enormes e obras mais singelas espalhadas pelo parque, que também funciona como uma reserva ambiental. Um passeio bem interessante e que com certeza vale a visita.
Por ter esse lado museu, eu esperava encontrá-lo vazio, mas me enganei.
Apesar de termos chegado tarde, quando muitas pessoas já iam embora, o lugar estava relativamente cheio. Muitos dos grupos eram famílias: pai, mãe e filhos, visitando o local. Na verdade a quantidade de crianças me surpreendeu. E não só a mim. Em certo momento ouvi duas senhores comentando:
- Quanta criança por aqui né?
- É. Isso é bom, pelo menos elas vão aprendendo desde cedo né. Já começam a entender.
Espero, realmente, que as crianças tenham começado a entender as obras. Eu confesso que depois disso me senti muito burro. Arte contemporânea é para ser entendida? Eu me contentei somente em apreciá-la.
Dependência
08/10/2009 por baninO primeiro contato é sempre meio esquisito.
Você fica nervoso, pondera se deveria levar adiante ou não, e na hora vê que não é do jeito que imaginava. Então vai adiante.
E os contatos são sempre diferentes, alguns bons, outros ruins, momentos de lucidez, às vezes melhora, outras piora.
“Quando eu quiser eu paro”
Mas não é assim que funciona. Parar é tão difícil quanto dar o primeiro passo.
Você pensa que está tudo bem, e de repente percebe a falta que faz
Vento Frio
22/09/2009 por baninEstava voltando do trabalho neste domingo, um dia que deveria ser proibido trabalhar, por lei, com direito a pena privativa de liberdade de quem fizesse tal sugestão. Já eram mais de 20 horas, sendo que o combinado era trabalhar até às 18, mas tudo bem. Grana extra.
Como se não bastasse ter trabalhado, ainda havia perdido minha chance de assistir o Anticristo, do Lars Von Trier, que provavelmente não estará em cartaz na próxima semana.
No ônibus, onde eu estava sentado próximo à janela, ouvindo meu mp3 com a cara mais fechada do mundo. sobem duas garotas, naipe periguete total, com blusa curta mostrando a barriga saliente, mesmo com o frio monstruoso que estava, falando alto e ouvindo funk pelo celular. Uma delas senta ao meu lado, mesmo com diversos lugares disponíveis sendo possível até que elas sentassem juntas.
De repente a garota vira pra mim e diz “Ow, fecha o vidro. Tá frio”
Eu olhei para ela, mostrando o maior sorriso que eu podia, apontei para o outro lado do ônibus e disse:
“Senta ali ó”
Arraste-me para o inferno
06/09/2009 por baninNum domingo de muita chuva e tédio em frente ao computador, decidi ir ao cinema do Shopping Anália Franco, assistir ao novo filme do Sam Raimi (diretor de um dos meus filmes favoritos) chamado Arraste-me Para O Inferno
No caminho a lotação fez jus ao nome, com direito a crianças chorando e mães escandalosas berrando com elas, o que só fazia o choro aumentar. Cheguei ao shopping sentindo um certo alívio ao desembarcar do transporte e fui direto ao andar do cinema. Faltava pouco mais de uma hora para o início da sessão, tempo mais que suficiente para comprar o ingresso, comer alguma coisa e ler umas páginas do livro antes do filme começar.
Errado.
A fila para compra de ingressos estava gigantesca, saia da área do cinema e invadia as proximidades das novas lojas do shopping, numa área recém inaugurada. Desci as escadas, iria comer primeiro, dando tempo para a fila diminuir, e depois compraria o ingresso.
A praça de alimentação estava estupidamente lotada, dezenas de pessoas rodeavam as mesas ocupadas na esperança que uma delas vagasse, como abutres sobrevoando um animal prestes a morrer. Pessoas com diversas sacolas perambulando por entre as mesas, mais crianças gritando, patricinhas com risadas histéricas que furam seus tímpanos.
Depois de ficar cerca de trinta minutos procurando por uma mesa, resolvi voltar ao cinema, ver se a fila havia diminuído e me contentar com alguma bebida do Starbucks para enganar o estômago. A fila continuava enorme, na verdade estava ainda maior e praticamente entrava em uma as lojas, a mesma coisa para a do Starbucks.
Desisti.
Não era preciso assistir ao filme, eu já estava no inferno. E o pior, nem fui arrastado até lá, foi tudo espontâneo.
Convite
04/09/2009 por baninAndando na rua, adiantado para um compromisso mas sem tempo hábil para ser interrompido (o que resultaria num atraso), sou parado por alguém. Um japonês de óculos, bigode e cavanhaque compridos mas finos e lisos, camiseta de corredor da Track & Field e uma bermuda.
- Oi, licença. Posso te fazer um convite?
- Claro!
- É um convite para conhecer a palavra de Deus.
Nessas horas eu sempre penso: “eu tenho cara de alguém que precisa ser salvo?”. Poxa, só porque eu estava usando uma camiseta do Heaven Shall Burn? Tá certo que nem dá pra ler o nome da banda direito e… tá, então foi isso mesmo. Quanto mais ilegível, mais true. Ele continuou:
- O que você pensa sobre Deus e Jesus?
- Eu? ahn, sinceramente? Nada
- Você crê em Deus?
- Não.
Ele não se espantou como eu imaginei.
- Mas o que você pensa da existência, da vida?
- Eu penso que a gente tá aqui, vivendo, e depois acaba e pronto. Sei lá, nunca me preocupei com isso.
- Você não aceita o convite, para refletir um pouco sobre essas coisas?
- Desculpa, mas não.
Sai andando. Ele pensando que eu deveria queimar no inferno, e eu pensando que ele acha que eu sou um idiota. Olhei para trás:
- Espera!
Ele se virou, surpreso e sorriu, um sorriso do tipo “venci”
- Você deve achar que eu sou um idiota que nunca parou pra pensar na vida, no porque das coisas e que tá pouco ligando né?
- Não, claro que não.
Mentira. Seus olhos diziam isso.
- Mas olha, eu penso nisso sim, direto. E foi de tanto pensar que cheguei a conclusão que não acredito.
Agora era ele quem queria ir embora.
- E sabe, eu ainda penso. Mais do que deveria. É por isso que minha cabeça tá toda fodida.
Silêncio. Nos olhamos por uns intantes.
- Eu poderia ficar bastante tempo debatendo isso com você, numa boa. Eu explicaria porque acredito e você porque eu deveria acreditar. Mas eu to atrasado para a sessão com meu psicanalista. Tchau.
Virei e sai andando. Gosto de acreditar que ele ainda levou uns segundos para voltar a se mexer.
